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Presentes

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Mãe Vida sempre fora generosa, mimava-a com muitos presentes. Não querendo que se misturassem ou corresse o risco de danificar algum, a menina resolveu guardá-los em caixinhas dentro de seu grande armário Coração.

Mas havia alguns problemas…

A caixa Felicidade, mesmo a menor delas, vivia se abrindo. Muitos momentos escapavam. Coisas que queria manter para sempre, acabavam se prendendo, isoladas, nas frestas escuras do Coração. Cada perda, como uma prece de retorno, era anotada em um fragmento de memória e depositada na caixinha Saudade. Esta, cada vez mais cheia.

A caixa Sonhos era de natureza curiosa. Seu conteúdo sofria constantes transmutações. Por isso, nem sempre se sabia o que na verdade se guardava lá, apenas, que ainda eram muitos.

A caixa Tristeza, por maior que fosse, vez ou outra transbordava. Coisas, as quais a menina não queria mais ter que rever, novamente lidar com elas, espalhavam-se e ela se via obrigada a procurá-las. Não podia deixar o quarto Vivência infestado pelos conteúdos da Tristeza. Era então que se valia da caixa Esperança. Pegava os presentes revoltos e os guardava nela. A caixa, com seu abençoado dom de renovação, transformava tudo que era da Tristeza em pedacinhos de expectativa.

O interessante é que mesmo com suas soluções de arrumação, a menina percebeu que os conteúdos das caixas se buscavam invariavelmente dentro do Coração. Que se comunicavam, convertiam, mesmo que por vezes, sem sua direta intervenção. Quando dava por si, já estavam transformados. Cabia então à menina aprender a lidar com essas novas situações…

Esse jogo de guarda, escolhe, transforma e resigna, a princípio, cansava-a e chateava. A menina queria que seu quarto ficasse arrumado. Que ela pudesse comandar os presentes guardados em seu enorme armário. Mas logo viu que era impossível, com tantas caixas, com tantos presentes. Enfim percebeu que a caixa mais importante da Vivência, era o próprio Coração. Era nele que depositava todos os presentes. Era nele que tudo acontecia.

Percebeu que a Vivência nunca seria a mesma. Que por mais, ou menos caixas e presentes guardados, o Coração sempre se transformaria.

Aceitou.

Viu que seria interessante poder sempre mostrar algo diferente aos coleguinhas. Tornaria Vivência algo a se estudar, querer compreender sua decoração, os novos ares dados a cada mudança de seu armário principal à medida que se perdia ou ganhava presentes. Mudanças boas, e outras nem tanto. Mas nunca uma mesmice.

Um Coração mutante, afinal, já não lhe parecia tão ruim assim…

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